segunda-feira, 30 de junho de 2008

El Flaco

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(...) Com as convicções que marcam a qualidade técnica dos seus jogadores, a Espanha impôs-se comodamente a uma equipa russa vulgar, que não acertou três passes seguidos. A Rússia não teve reacção anímica, nem jogo, nem atitude, e muito menos individualidades, que são reconhecidas quando uma equipa tem a bola nos pés para mostrar que é melhor. Acaba por ser nada.

Os gritos "incendiários" do seu treinador, Hiddink, não tinham efeito. O incêndio acabou como se o cenário fosse demasiado grande para ele.

Havia muitos anos que a Espanha não apostava neste estilo, muitos anos em que apostou no músculo e marginalizou o talento. Era fúria. Agora, juntou primeiro os que melhor jogam e com eles procurou um equilíbrio. Hoje, a Espanha é a coragem do toureiro e não o touro. (...)



César Luis Menotti, no Record deste domingo. Há que saber apreciar devidamente aquela camisa aberta até ao umbigo; não fica bem a qualquer um.

Mr. Ocean

..., what we're trying to find out is: was there a reason you chose to commit this crime, or was there a reason you simply got caught this time.

- My wife left me. I was upset. I fell into a self-destructive pattern.

- If released, is it likely you'd fall back into a similar pattern?

- She already left me once. I don't think she'd do it again just for kicks.


(Ocean's Eleven, 2001)

"voltamos à análise científica de Rui Santos"

Estou manifestamente satisfeito. Ganhou a minha selecção à partida desta bodega - vá, fora a selecção cá da terra e mesmo com a não convocação de Guti. Para mais, ganhou contra a mais hedionda selecção deste euro. (Não, não me parece que alguém possa considerar a Polónia, a Áustria ou a Grécia como selecções.) Ganhou quem tinha nove jogadores de futebol em onze titulares - estou a descontar destas contas Capdevilla e Marchena, que são futebolistas competentes como podiam bem ser outra coisa qualquer com igual competência. Ganhou Aragonés, o velho, o ultrapassado. Racista, até, alguém disse depois do espirituoso episódio com Reyes. Ganhou um treinador espanhol à frente da selecção espanhola. E ainda deu para esmagar Hiddink e a sua aura de mágico por duas vezes. Ganhou um treinador que a meio do Euro se descobriu ter acordo milionário na Turquia para treinar o Fenerbahce - que se saiba, nenhum jogador espanhol morreu de desgosto por isso ou se desconcentrou fatalmente. É tudo muito bonito e tudo desmitifica os lugares comuns do costume. Ganhou a Espanha e perderam os clichés: de que a Espanha jamais passaria dos quartos ou mesmo da fase de grupos; de que Aragonés era um treinador obsoleto; de que é necessário um seleccionador estrangeiro com nome para pôr ordem numa selecção composta por bons jogadores; de que o anúncio por parte do Chelsea da contratação de Scolari tudo estragou; de que "onze para cada lado e no final ganha a Alemanha" - só a Lineker e a mais ninguém fica bem dizer isto. Tretas: é uma delícia ver tudo isto cair por terra. Há ainda um complexo português contra os espanhóis que me soa a idiota, provinciano, e julgava esbatido. Não, não está. Aqui não se torcia por Espanha por ser país vizinho ou amigo ou o raio que o parta; aqui torcia-se por Espanha por ter gente (muita) capaz de jogar bem (muito). Portugal teve uma oportunidade bestial de chegar à final, não era utopia alguma ou a usual megalomania: era um grupo de individualidades acima da média e um sorteio absurdamente feliz. Agora, evidente que até dói, Queirós. Caso não esteja para aturar Madaíl e/ou ame ser treinador de campo do United, que Aragonés faça moda, que venha um velho; que venha Manuel José, sim. (Se não gosta, caro leitor, de Manuel José, posso garantir que morria se lhe contasse qual a minha terceira opção.) Não se complique o que é básico. O futebol sempre teve muito mais de simples que de complexo; Aragonés sabia-o. Lema novo: onze para cada lado e no final ganham os anões do meio-campo espanhol. Xavi, Iniesta, Senna, o suplente Fabregas, Silva, que deleite; e lá para trás, Ramos, Puyol e Casillas; e lá para a frente, Villa e Torres. Neste último mês gostei muito de ler o Ferreira Fernandes n'O Jogo e o Menotti no Record quando os apanhava; e gosto sempre sempre da escrita sobre bola do Nuno Ribeiro, correspondente do Público em Espanha. La Cancha, é o nome da crónica semanal do NR. Vila Praia de Âncora é um sítio bem simpático, monotonamente bem simpático. Uma terra que me torna sarcástico. Li um conto do Saroyan que me derreou, preferia não o ter lido; agora peguei num livro da Lorrie Moore que muito adiei depois de ler o Pássaros da América. Está a dar o Ocean's Twelve na Rtp1. Tenho um prazer eterno em ver os filmes da série, acima de tudo por isto: aquela gente veste-se bem.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Vila Praia de Âncora

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Sim, Diane Fleri.

young Wiston

"(...) Numa passagem muito citada da sua autobiografia, My Early Life, Churchill descreve o seu exame de Latim das provas de acesso a Harrow:

Escrevi o meu nome no cimo da página. Depois, escrevi o número da pergunta «I». Após muito reflectir, coloquei parênteses à volta do número «(I)». A partir daí, não consegui pensar em nada relacionado que pudesse ser relevante ou verdadeiro. Por acidente, apareceram na página uma mancha de tinta e alguns rabiscos, que contemplei tristemente durante duas horas, após as quais um piedoso contínuo veio buscar esta minha carapuça de bobo e levou-a ao reitor.
"


("Churchill", John Keegan, tinta-da-china)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

não é o mais genial dos geniais artigos que li hoje e ontem, enfim, mas dá para perceber que o cérebro do Ray Allen é o mais depurado dos três

"We've seen this act in sports before. A group of sterling individual talents thrust together on the same team, expectations raised to the rafters. A title? Slam dunk. On paper, they look unbeatable. The '99 Houston Rockets, for example, had Charles Barkley, Hakeem Olajuwon and Scottie Pippen. The New York Yankees--every year their lineup looks like a world beater. Too many times, these quick fixes fail; the inflated egos can't fit into the same arena. Those Rockets lost in the first round of the playoffs. The Yankees haven't won a World Series in seven years. So how do you explain the 2008 Boston Celtics? Last season, the Cs, one of the most celebrated sport franchises, winners of 16 titles, were the joke of the NBA. They finished 24-58 and at one point doormatted 18 straight games. During the off-season, Celtics GM Danny Ainge pulled off a pair of heists, bringing Kevin Garnett, the 6-ft. 11-in. (2.1 m) EX-MVP who is one of the most versatile players ever, and sweet-shooting guard Ray Allen to Boston. There they joined Paul Pierce, an automatic scorer and a six-time All-Star himself. Nice. But none of these guys have ever sniffed a championship. And they have only one ball to share.

Yet the Celtics are a stunning 40-9, the best in the NBA. When you sit down with Boston's cerebral Big Three, they'll tell you about ubuntu, the South African unity principle preached by coach Doc Rivers. But dig a little deeper and you'll discover less esoteric explanations behind Boston's success.

Like thank goodness these guys stank last year--or at least their teams did. "First and foremost, it only works when you have guys who have been on teams that have struggled," says Allen, whose Seattle SuperSonics finished in last place in their division. "The three of us have carried teams in the past, and the only thing we need to prove is that we want to win a championship." Garnett missed the playoffs in Minnesota; Pierce admits that basketball became a "drag."

Celtics fans: you're lucky they're not young whippersnappers, dingbats in their 20s seeking the stats for an insane contract. "When you are young, you are trying to secure yourself," says Pierce, 30. (Read: Just give me the damn ball.) "You look at us three--we've made millions of dollars. We've won tons of awards. So we look at each other and say, 'Hey, what's left to do?'" Allen is 32, Garnett 31--old enough to buy their own team yet young enough to still score at will.

We shouldn't totally dismiss that more mysterious component of team success: chemistry. Kicking back in the players' lounge at the team's Waltham, Mass., training facility, Allen, Garnett and Pierce are loose, introspective and quick to pounce. Garnett calls Allen stubborn, and Allen predicts that if Pierce doesn't shave his head, he'll grow George Jefferson hair. The trio's personal history helps. Garnett and Allen were Olympic teammates in 2000 and have known each other since their South Carolina schoolboy days; Garnett and Pierce played as teens for the same Amateur Athletic Union team.

It's easy to get them going about issues. Allen thinks the NBA's interminable 82-game regular season waters down the action. "I would cut the games back," he says. "You're going to see a level of intensity go up." In a sports world consumed with wiping out drugs, Garnett, who was chosen for the Feb. 17 All-Star game but has an abdominal strain, would offer a curious reform. "We're drug-tested too much," he says. "We're very funny about our routines. The policy is set up now where, on game day, they can come get you, take you. If you can't go, you'll sit there--they'll hound you."

I ask them about two recent books, both written by African-American journalists, that argue that today's black athletes have largely abdicated their social responsibility. There's no compelling need for it, says Pierce. "We don't have to deal with a lot of racism. It's not as open and as broad as it was back in the day. And that's why there's not as many of us who step in that position." Each of them has done noble charitable work, but Allen argues that a big paycheck doesn't equate with a platform. "You could have made money picking up roadkill," he says. "Now you have this big company where you've got people all over the world picking up roadkill. You've got $70 million in the bank. That doesn't make you knowledgeable about world hunger." Allen's inquisitive mind often wanders off to unexpected, some would say bizarre, areas.

Yes, their chemistry is refreshing. But will the buddy act last if one of the Big Three itches for more shots? Will Allen, Garnett and Pierce be able to exorcise their postseason demons? Will a no-name supporting cast sustain the Celtics?

"Just because you haven't heard of someone doesn't mean they're not effective," says Garnett of Boston's role players. "That's exactly how you get beat." Garnett surely knows enough about losing. With his two wingmen, he can finally talk tough on how to win big."

(da TIME)

(vídeo da entrevista aqui - destaque para a referência do Ray Allen ao "Do the Right Thing".)

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terça-feira, 17 de junho de 2008

a causa foi modificada:

este sacana, num texto de 1500 caracteres, consegue falar do Rosado e da terra do meu pai *

Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Ide ver aqui o MacGuffin tentando produzir inveja. Uma pessoa quando vive em povoações que apenas devido ao acaso e à imprudência da Reconquista têm hoje a oportunidade de torcer pelo Cristiano Ronaldo, pelo Petit, pelo Deco e pelo Bosingwa, aglomerados semi-urbanos que, além do mais, são um peso incomportável para o orçamento devido ao paradigma da solidariadade do litoral com o interior, vem por meio de um presunto e da banda larga do guterres semear um pecado mortal na população cosmopolita e educada. População essa, aliás, de cujo suor sairam não só a auto-estrada, como,sintomaticamente, a ligação de Casa Branca a Évora, porque, é a realidade, o comboio não passa por Évora, foi necessário fazer derivar um ramal por uns quilómetros a partir da linha principal para que o excelente Intercidades lá chegasse. Claro que contra o presunto eu poderia colocar aqui a lista das peixarias a menos de 500 metros da zona de rebentação que podemos encontrar desde Caminha a Vila Real de Santo António. Mas não vou por aí. Basta referir-me ao pão. Vidigueira? Torrão? Bons pães, não duvido; mas como mihares de outros. Depois do peixe e do Diogo Rosado, a maior riqueza de Portugal é o pão. Custa-me que a magnificência da panificação portuguesa seja tão pouco laureada. O pão de Pernes, conhecem? Não faz mal, é tão bom como o de Martim Longo ou de Beja ou, ou, ou, ou. Os portugueses parecem-me tão competentes a fazer pão que até o "Pão Alentejano" da Casa Xandite da Costa da Caparica consegue ser estupendamente aceitável. Sempre me fez espécie.


* Este é, para todo e qualquer efeito, o melhor post menor do ano.

gente que pensa bonito

prova a)

Avulsos

Estava na hora de Shyamalan começar a filmar argumentos de outros, tão pouco "Shyamalanescos" quanto possível. A ver se o seu talento deixa de estar sufocado pela beatice da sua "visão do mundo". Luís Miguel Oliveira, Ípsilon (a Propósito de O Acontecimento)
Infelizmente concordo. Sempre me opus às acusações de naïvité e beatice lançadas à obra de Shyamalan (no que Žižek e Bénard da Costa, cada um a seu jeito, expressamente me têm apoiado). Mas a triste verdade é que começo a ficar sem argumentos para o defender. O mais grave é que a continuar nesta senda Shyamalan está a "decidir" retroactivamente o modo como alguns dos seus filmes, de recepção liminar, ficarão para a posteridade. Ora, isto é algo que abala a minha autoridade nas memoriosas mesas de café deste país. O Sexto Sentido, O protegido e A Vila, filmes que reputo, teriam beneficiado em muito de uma morte prematura do seu autor (às mãos de ETs, por exemplo). Mas enfim, há ali inequívoca centelha de génio. É cedo para desistirmos. Acho eu.

prova b)

Obama

"Obama é uma doença infantil pateticamente alimentada pela "esperança messiânica" da esquerda europeia, ainda mais infantil uma vez que o homem pouco tem de esquerda." É esta a tese dos lúcidos de serviço que nos querem proteger das nossas ilusões. Nada mais paternalista. Eles já perceberam que apoiar Obama obriga à ingenuidade de julgar que a Realpolitik americana se vai dissolver no ar; à ingenuidade de acreditar que se vão afrontar os interesses económicos instalados nos Estados Unidos; à ingenuidade de presumir que acabará o apoio militar a Israel; à ingenuidade de ver a retirada do Iraque como o toque de midas que trará hamonia à colónia. Na verdade, ingénuo é quem assim reputa os outros porque capazes de algum entusiasmo.

O facto é que basta ouvir Obama falar de política internacional, da importância de saber dialogar com os inimigos (sim, como o Mário Soares), da importância do multilateralismo (leiam as declarações dele sobre o Irão), da importância de tirar a religião da política, da importância de se acabar com chantagem do patriotismo e da insegurança, etc. para se chegar à brilhante conclusão que depois de Bush não é preciso um messias para fazer toda a diferença. Sim, a eventual eleição de Obama carrega vastas esperanças após 8 anos indecorosos de política americana. So what?


daqui: avatares de um desejo

Diane Fleri

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«I always contradict myself»

Richard Burton em Bitter Victory, de Nicholas Ray.